Mixagem de Rock e Metal: Agradável e Agressivo

Mixagem de Rock e Metal: Agradável e Agressivo

Mixagem

Esses dias eu estava ouvindo algumas músicas de Rock e de Metal e tive um insight sobre as boas mixagens desses estilos – elas tem as 2 características “AGR”: Agradável e Agressivo.

Pense em algumas das bandas modernas de metal com grande produção e mixagens de alto nível. Provavelmente ela terá essa sonoridade que estou falando, que é impetuosa o bastante pra fazer os fãs de metal baterem cabeça e gritarem “Yeah”, mas não são estridentes de forma a incomodar os ouvidos. Se você estiver escutando em alto volume, a sua mãe vai reclamar não por causa da sonoridade, mas por causa do estilo e dos gritos!

E como conseguir chegar nesse resultado de mix? Vamos o que podemos fazer para alcançar essas duas características.

Agradável

Para conseguir um som que seja ‘smooth‘ aos ouvidos, que você consiga ouvir durante bastante tempo sem sentir incômodo, as principais ferramentas que você pode usar são:

– Equalização: o grande lance pra deixar a coisa suave é a EQ corretiva. Ou seja, achar as frequências incômodas e reduzir na medida certa o volume delas. No rock e metal há uma tendência muito grande a ter frequências estridentes (“harsh”) demais, principalmente nas guitarras e nos pratos. O processo é simples: pegue uma track de guitarra, por exemplo, sole ela (pra EQ corretiva não tem tanto problema trabalhar em Solo) e insira na track um equalizador com o Q pouco abrangente, isso é, bem ‘fino’. Antes de usar qualquer EQ, o ideal é você já tentar diagnosticar com uma audição atenta, quais são as frequências que te incomodam. Essa é uma percepção que você vai desenvolvendo com o tempo e com a experiência. Mas é importante que você não faça nenhum passo de EQ sem antes ter pelo menos uma noção de que alguma frequência em algum lugar está “demais”. Porque se não tem nada te incomodando, nem sobrando, nem faltando, então não use nenhum EQ!

Então, uma vez identificadas mentalmente as frequências que te incomodam (se houver), faça o sweep, ou seja, aumente bastante o ganho de uma band no EQ e comece a varrer as frequências… até a hora em que você localizar aquela região que te incomoda. Em guitarras estridentes provavelmente vai estar entre 2khz e 5khz. Então você abaixa o volume dessa frequência até o ponto em que acha que está soando bem, e ajusta o Q pra não afetar nem frequências demais nem ‘de menos’. Você vai ver que fazendo esse tipo de EQ corretiva, o resultado final vai ficar bem mais agradável.

EQ corretiva nas tracks de Overhead e de Guitarra
(clique para ampliar)
EQ corretiva nas tracks de Overhead e de Guitarra (clique para ampliar)

– Compressão: uma coisa que ajuda a mix a ficar mais suave é você controlar as inconstâncias das tracks. Quando as coisas não estão comprimidas corretamente, podem acontecer variações de pegada e volume em todos instrumentos, que gera uma certa instabilidade. Esse ‘descontrole’ pode ser sutil, mas é um dos fatores que diferencia as mixagens mais amadoras das grandes produções do rock/metal modernos. Uma maneira de ‘domar’ as tracks é usando um limiter, como o L1, no final da chain de plugins das tracks e nos subgrupos. O lance é ter um só um pouco de gain reduction, de forma que o timbre não altere de forma perceptível, mas a pegada fique mais constante.

Limiter sendo usado no grupo de Guitarra (clique para ampliar)
Limiter sendo usado no grupo de Guitarra (clique para ampliar)

O princípio aqui é reduzir a dinâmica para ter instrumentos mais consistentes. A macro-dinâmica você pode recuperar na automação. Ou seja, se tem uma parte que você quer que o instrumento soe mais baixo, você cria uma automação de volume pra ele soar mais baixo naquela parte. Unindo o limiter com as automações, você remove um pouco da dinâmica descontrolada para então poder criar a dinâmica controlada. Mas claro, lembre-se sempre que isso que estou falando são sugestões de técnica que devem ser aplicadas caso haja necessidade! Nada de sair aplicando em tudo cegamente! É importante sempre aplicar técnicas de mixagem tendo em vista um objetivo consciente.

Agressivo

Para conseguir aquele som mais nervoso na mixagem, as principais ferramentas que você pode usar são:

– Compressão: dessa vez a compressão não tem como objetivo reduzir a dinâmica, mas sim dar uma esmagada no som de forma que ele soe mais agressivo, como se o baterista estivesse esmurrando ainda mais a batera. Para isso você pode fazer, por exemplo, o seguinte: Coloque um compressor no grupo da batera, de preferência um comp que tenha mais coloração, como o 1176 ou Distressor.

Para definir os parâmetros você deve exagerar bastante a compressão, pra ouvir bem o que está acontecendo quando você muda o Attack e Release, e depois então você reduz a compressão até o nível ideal. O grande segredo desse tipo de compressão é que há um movimento, um groove, que você consegue ‘forçar’ com o parâmetro do Release. Vá aumentando e diminuindo o Release enquanto mexe o seu corpo conforme a música. Uma hora você vai achar um ponto onde a compressão sincroniza com a vibe da música, aí você deixa o Release nesse ponto. Quanto ao Attack, esse parâmetro tem a ver com a relação entre transiente x sustain você quer na batera. Se o Attack estiver bem rápido, você come os transientes e deixa a batera bem ambiente. Se o Attack estiver lento, você deixa passar os picos, e aí a batera fica mais na cara. Geralmente nesses estilos você vai querer que o ataque seja mais lento mesmo, pq senão ela perde muito o ‘poder’ que há nos transientes.

Compressores Arousor (simulador de Distressor) no Overhead e no Baixo com o objetivo de criar movimento (clique para ampliar)
Compressores Arousor (simulador de Distressor) no Overhead e no Baixo com o objetivo de criar movimento (clique para ampliar)

Lembrando mais uma vez que isso é uma sugestão pra você experimentar, tirar suas conclusões e ver se serve pra você ou não! E aí depois de ‘setar’ o Attack e Release, experimente com os controles de Ratio, Input e Threshold, o tanto de compressão que você acha que soa melhor. É importante sempre tentar compensar o volume pós-compressão com o Output, de forma que o volume com o plugin ligado e desligado não seja muito diferente. Dessa forma você pode ir dando bypass e ligando o plugin pra comparar ouvindo os efeitos da compressão sem ser enganado por uma mudança de volume, e então ter mais consciência nas decisões.
Em todas as tracks você consegue criar um pouco desse ‘movimento’ com um compressor. Mas tenha cuidado ao usar, para que os movimentos sejam compatíveis entre uma track e outra. Use o compressor no baixo ouvindo a batera. Use nas guitarras ouvindo o baixo e a batera. E isso ajudará a música a ter um pouco mais de energia, e você notará um pouco mais de agressividade, principalmente comprimindo a batera.

Clipper e compressão nas tracks de batera (clique para ampliar)
Clipper e compressão nas tracks de batera (clique para ampliar)

– Clippers: Um recurso muito usado nas produções mais agressivas é o uso de plugins de clipper nas tracks. O clipper é como se fosse um limiter, só que ao esmagar o volume no ‘teto’, ele não simplesmente abaixa o volume, mas ele tenta compensar mudando o formato da onda e criando algumas saturações. O resultado disso é que você comprime a track, deixa ela mais agressiva, e você percebe menos o efeito de “esmagamento” criado pela redução de volume. Usar plugins como o JST Clip nas peças de batera, e até na voz, pode ser uma ótima maneira de deixar o som com mais punch sem alterar muito a sonoridade. Experimente que você vai entender melhor ouvindo o resultado do que lendo a teoria!

– Distorção/saturação: Outra coisa que pode ajudar a deixar as tracks mais violentas é o uso de plugins de distorção. Vale tudo: distorcer voz, bateria, baixo… só não vale passar da medida e deixar tudo um caos infernal. Um bom plugin pra isso é o Decapitator… você joga na voz por exemplo, deixa bem exagerado pra mexer nos parâmetros, escolher se você quer uma EQ mais brilhante ou mais fechada, e aí você vai diminuindo o Mix, pra escolher a dosagem certa da distorção.

Ao colocar distorção no baixo, uma técnica bem comum nesses estilos agressivos é dividir o baixo em 2 tracks, uma filtrando os graves e deixando só os médios e agudos, e outra track filtrando tudo e deixando só os graves. Aí na track dos graves você usa um pouco menos de distorção, e comprime bem, de forma que os graves fiquem mais macios e o low-end fique controlado, enquanto as frequências agudas do baixo (na outra track) já podem exercer sua agressividade sem descontrolar tanto a base sólida da música.

Simulador de amp e distorção na track do baixo (clique para ampliar)
Simulador de amp e distorção na track do baixo (clique para ampliar)

Bom, claro que existem muitos outros fatores e técnicas que podem te levar a ter essa sonoridade com o duplo ‘AGR’ das mixagens de rock e metal moderno (uso de samples, impulse responses, e por aí vai)… e também pode ser que algumas das coisas que eu falei não funcionem pra você. Mixagem é uma mistura de técnica e arte, e o que um acha bom o outro pode não achar. Mas o que eu compartilhei funciona comigo em grande parte dos casos, então imagino que se você trabalha com esses estilos, possa encontrar pelo menos um pouco de utilidade nesse artigo!

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